Do teatro, que é bom

— Não, você não tem razão alguma em fazer restrições ao empreendimento desses meninos e dessas moças. Só o fato deles nos descansarem do cinema, dessa imbecilização crescente pela tela, com que os Estados Unidos afogaram o mundo, para depois tomá-lo sem resistência, só isso me faria dar à Legião de Honra, à Cruz de Ferro, à Ordem do Cruzeiro, tudo que haja de condecoração em todo o mundo aos amadores do nosso teatro. Olhe, quando se falou contra o ópio do povo, devia-se ter posto no plural e juntado o cinema e o futebol… o mundo não progride por causa desses entorpecentes…

— Você está inteiramente equivocado, o cinema como o estádio exprimem a nossa época. Basta você recorrer a um indicador demográfico para verificar como a era da maquina tinha que produzir seus meios expressionais para uma humanidade que blefaria Malthus na sua prodigiosa ascensão censitária. O mundo de hoje tende a crescer e não há espiroqueta pulido, pára-quedista químico, tanque, canhão ou metralhadora, SS, o estreptococo rajado, que possa com uma humanidade alfabetizada, elucidada pelo cinema, vigilante pela escola, saneada no esporte e na higiene alimentar, amparada pela a cirurgia, pela a sulfanilamida, pela granacidina…

— Tudo isso seria ótimo se não houvesse aquela pequena diferença que fez o índio brasileiro, citado por Montaigne em “Os Canibais”, observar na corte de Rouen, que muito se admirava do conforto da cidade européia, mas muito mais de que não fossem os palácios e salões queimados pelos habitantes dos cortiços e dos casebres…

— Ora, tudo tem seu tempo. A humanidade processa dialeticamente a sua ascensão. Cria o órgão e cria a função. Se amanhã se unificarem os meios de produção, o que parece possível, já não haverá dificuldades em reeducar o mundo, através da tela e do rádio, do teatro de choque e do estádio. E a era da máquina que atinge seu zênite. Por isso mesmo, meus reparos são contra o teatro de câmara que esses meninos cultivam, em vez de se entusiasmarem pelo teatro sadio e popular, pelo teatro social ou simplesmente pelo teatro modernista a, que ao menos uma vantagem traz, a mudança de qualquer coisa. Houve quem me dissesse que Lenormand, aqui representado, é moderno. Por quê? Porque as suas peças são em dois atos? Meu Deus! Mas veja o espírito! Aquele imperialismo francês que havia de dar em Vichy, e na grotesca fidelidade da Martinica! Com toda a bêtise do colonial da época de La Condamine, sem entender nada do que acontece. Afogado conchavo de almas eleitas perdidas na epiderme duma África de ficelle onde o senhor feiticeiro vem anunciar, no primeiro ato; a desgraça que acontece certinha no final! Há uma canção de Montparnasse com que os estudantes de Medicina de Paris costumavam celebrar os seus amores:

“Nous sommes unis par la vérole
Mieux que par Ie lien conjugal!
On exposera nos viscéres…
Chez Dupuytren”.

É todo Lenormant. Você não acha? Esse compartimento estanque de incuráveis de uma sociedade incurável, que vem expor suas vísceras esverdinhadas a luz doentia dos refletores mais lúridos… Olha, o título de sua obra-prima diz tudo, Les Rates…

— Mas o que você queria que eles representassem? O teatro francês tem dado boutades neste século, grandes boutades é verdade, mas que geralmente canalizam seu êxito nos elencos admiráveis, coisa que aqui ainda não pode suceder. Veja o sucesso de Romains e o de Giraudoux, é devido a Jouvet. A França nestes últimos tempos tem aprimorado a expressão cênica. Uma reação admirável contra o abastardamento trazido pelo cinema. Sentindo-se atacado, o teatro melhorou, produziu o Vieux Colombier, o Atelier, alguns minúsculos palcos de escola, onde se refugiou o espirito nessa fabulosa Paris que a bota imunda do guarda-floresta Hitler tenta inutilmente pisar… Veja como, graças aos Dullin, aos Pitoeff, aos Copeau, o teatro soube reacender a sua flama que parecia extinta…

— De outro lado você parece esquecer Meyerhold e as fabulosas transformações da cena russa a a fim de levar a massa, o espetáculo, a alegria e a ética do espetáculo… Tudo o que tinha sido anunciado por Gorki.

— Bragaglia também tentou…

— Não, Bragaglia funcionou no pequeno laboratório modernista das experiências que você acaba de citar… São ainda e sempre o teatro de câmara. A réplica cenográfica do paradoxo de Pirandello. Não vou negar, nem ao próprio Bragaglia e nem ao próprio Pirandello, o valor dessas pesquisas nos dois campos, da plástica cênica e da ótica psíquica… Mas, isso não corresponde mais aos anseios do povo que quer saber, que tem direito de conhecer e de ver… Essas experiências intelectualistas são uma degenerescência da própria arte teatral, da própria finalidade do teatro que tem a sua grande linha dos gregos a Goldoni, a Commedia del’ Art, e ao teatro de Moliére e Shakespeare… E que um dia, talvez breve, há de somar num sentido honesto, Wagner e Oberammergau…

— Por que será que essa concepção de teatro de massa que você atira nas costas do classicismo para justificar o seu Meyerhold, teria estagnado do século XVIII para cá?

— Pela simples interferência vitoriosa do individualismo em seu apogeu. Como a pintura desceu do mural, abandonou as paredes das igrejas e se fixou no cavalete, o teatro deixou o seu senti do inicial que era o de espetáculo popular e educativo, para se tornar um minarete de paixões pessoais, uma simples magnésia para as dispepsias mentais dos burgueses bem jantados. Dai a sua decadência enorme em to do o século XIX. A própria pujança de Hugo, com o seu prefácio do Ernani, o seu Ruy Bias, não teve a prise que podia ter na cena. O romantismo estragou lá Hugo, e aqui, Gonçalves Dias…

— Você tem acompanhado os rodapés minuciosos do Sr. Antônio Cândido sobre o maranhense?

— EIe é uma flor de talento e boa vontade ao lado dessas baratas caídas no melado da cultura, desses batráquios atolados no documento, coaxando ao universo estrelado kantiano e ignorando totalmente tudo que não for chatologia pueril, isto é, tudo que não for além da intelligentia burguesa disfarçada num avental de laboratório americano, bem engomado, bem pago e cristão. Ignoram a Judéia, a Grécia, o medievo, a grande metafísica alemã, de onde foi dado o sinal de partida do mundo moderno das ideias… E de onde saiu um grande homem de teatro…

— Henrik Ibsen. ” Conheço seu velho esquema sobre o norueguês. ” Acho excessiva a operação ortopédica que você tentou há quase um século, quando era estudante, num artigo na Revista do Centro Acadêmico Onze de Agosto, onde pretendeu ligar Ibsen a Kant…

— Talvez hoje eu não fosse capaz de ser tão sintético. Mas, há nas duas ramificações essenciais de Ibsen, que naquela época eu preferia fazer partir da razão pura (Peer Gynt) e da razão prática (Brand)

— o sinal das Antíteses.

— Troque isso em miúdo senão não entendo.

— Ora, que dizem as Antíteses? Ou Deus existe… É o fundamento da razão prática… Se você quiser, da Moral… É o imperativo categórico que leva o pastor Brand na sua louca ascese sentimental, primeiro a sacrificar a mãe que agoniza sem absolvição, depois o filhinho que não resiste as intempéries daquele fim de montanha, onde ele erigiu o seu ríspido apostolado, depois a companheira, a esposa que não tem o direito sequer de guardar a touquinha banhada pelo último suor de sua criança morta… e que estala sob a cólera religiosa do monstro… Enfim a sua final ascensão solitária na direção da Catedral de Gelo e a voz da avalanche que ensina que Deus é caridade…

— De outro lado, se Deus não existe…

— É Peer Gynt, o aventureiro na espiral das sensações e dos equívocos, que o fazem naufragar um dia nas praias saudosas da infância, para correr atrás de si mesmo, perseguido pelas canções que devia ter cantado, pelas lágrimas que devia ter chorado, pelos atos que devia ter praticado… E só se encontrou no amor de Solveig, antes que a colher do caldeireiro gigantesco o fizesse voltar a massa dos que não tem efígie… Desse pórtico magnífico saem as principais obras do mestre. Você pode filiar Hedda Gabler, e Os Espectros a insensibilidade moral de Peer, enquanto da Casa de Boneca ao Pequeno Eyolf e a Senhora do Mar há o desenvolvimento do drama de Brand. Está aí um teatro para hoje, um teatro de estádio… participante dos debates do homem…

— Houve uma tentativa levada a cabo por Lugne Poe, em Paris, de se representar o Peer Gynt…

— Só a técnica intervencionista dos estetas soviéticos possa talvez realizar essas cenas debaixo do mar (no naufrágio), a aparição do cão de bordo, querendo comprar de Peer o seu cadáver para estudar o núcleo do sonho… Os surrealistas em Paris tentaram realizar, na cena, Strindberg. ” Ibsen era, para eles, grandioso demais, demais coletivo, próximo portanto das origens verídicas do teatro — festa popular e grande catarse… Na Grécia como a política, o teatro padece da decadência que vai do homérico ao aristofânico, da soberba unificação diante de Tróia, ao esfarelamento fratricida do Peloponeso. Quanto mais próximo do fatum, do destino que traz em si a marca da irresponsabilidade de Deus, o homem em luta com ele se destaca e se humaniza de Ésquilo a Sófocles, mas quando chega Eurípides, desfiam-se os enredos dos casos de família e nem mesmo os urros de Écuba e o amor de Hipólito fazem voltar o palco helênico ao esplendor da Tebas de Édipo ou do voto de Minerva que fez parar a corrida angustiada de Orestes. Tanto que, e em Eurípides que a metrificação envernizada e tersa de Racine vai buscar o texto de suas mediocridades, para edificação e divertimento dos colégios de Sion de todo mundo. Ésquilo e Sófocles ficam intangíveis e altos do pórtico da tragédia dionisíaca a que Nietzsche deu a única heráldica de era capaz, a do seu gênio. Ressalta, pois, de tudo isso, o caráter religioso do teatro, festa coletiva, festa de massa, festa do povo, cujo sentido já é modernamente e vagamente procurado em Shaw e no passional americano, O’Neil. A França deu, nestes últimos tempos, também uma grande farsa, que não fica longe dos mistérios medievais, ou melhor, das suas grandes jocosidades que Jacques Copeau reconstituiu nos dias magníficos do Vieux Colombier. Foi o Ubu de Jarry onde o Rabelais represado pela burguesia de bons costumes, que vem de Lesage a Flaubert, havia de trazer a nós todos a esperança de sua imortalidade. O Ubu-Roi de Jarry, as paradas sensacionais do Cocteau da Tôrre Eiffel e uma grande forma nova de teatro encontrada no ballet, tiveram sua expressão, seu denominador comum, num homem que seria o único capaz de realizar o grande espetáculo moderno que devia ser a ópera. Se houve ultimamente um gênio em França, esse se chamou Erik Satie…

— Aliás, um discípulo dele realizou a ópera de que você fala, o Cristóvão Colombo do claudeliano Darius Milhaud. E Claudel?

— Claudel não é só a Idade Media leprosa e milagreira daquele horrendo Annonce fait a Marie. Entrego o assunto ao Prof. Roger Bastide que fez aqui, o ano passado, uma grande conferência sobre Claudel… Claudel é sobretudo a catolicidade, uma sombra intelectual de Loureço-o Magnifico. O contrário dessa igreja galicana, herética, intrigante e impopular, que Bernanos representa inutilmente, atacando Hitler e querendo o Duque de Guise… Claudel está sendo realizado inferiormente por Milhaud…

— Que tenta, no entanto, o grande teatro moderno, a ópera…

— Exatamente. Tudo isso indica o aparelhamento que a era da maquina, com o populismo do Stravinski, as locomotivas de Poulenc, as metralhadoras de Shostakovich na música, a arquitetura monumental de Fernand Léger e a encenação de Meyerhold, propõe aos estádios de nossa época onde há de se tornar uma realidade o teatro de amanha, como foi o teatro na Grécia, o teatro para a vontade do povo e a emoção do povo… Como teria sido agora na Espanha se acontecesse o contrário do que aconteceu: — para a mediocridade de Jacinto Benavente o Prêmio Nobel e para Federico Garcia Lorca o pelotão da madrugada. Mas é pelo teatro popular indicado por esse Whitman moderno que se venha talvez a realizar a estética coletivista de Meyerhold e de Tairov.

— E a Espanha velha? A Espanha de Caldéron… e dos mistérios?

— Shakespeare superou Calderon como a Inglaterra derrotou a invencível Armada. A época era humanística e não católica. Eu tenho a impressão de que por detrás do histrião Shakespeare, viveu oculto um dos maiores humanistas da era elisabetana.

— Bacon de Verulam? Mas eu não vejo relação entre o pensamento claro e lógico do chanceler e essa caverna onde uma humanidade vistosa e narcisista debate os seus instintos primários que é toda a obra de Shakespeare.

— Basta pensar no Hamlet para você ver quanto erra: o Hamlet é, para mim, a carteira de identidade de Bacon no bolso do jaleco de Shakespeare. Há todo o drama do renascimento humanístico no príncipe viajado tornado culto, portanto cético, no contágio sufocante dos primados ancestrais que ia encontrar em Eisenor.

— Mas você não acha um disparate fazer concordar aquele racionalismo que sucedeu ao de Montaigne, com as florestas que marcham, os punhais recurvos de Otelo e os balcões floridos de Julieta?

— Engano, veja, séculos depois, outro exemplo. É o claro, o luminoso, o estatal Goethe, de Weimar, que desencadeia as forças subterrâneas e as forças celestiais no embate encarniçado pela alma do homem tornado livre. No Fausto, no primeiro e no segundo Fausto, há Bacon e há Shakespeare.

— Puro teatro, e que teatro!

— Um espetáculo, meu caro. Mas o mundo se transformou depois do sedentário século das luzes, do romantismo de gabinete e da calma Aufklärung. Sancho montou o cavalo de Quixote! E a imagem guerreira do fascismo, a burguesia, a pequena-burguesia querendo tomar parte em rodeios com um vilão do tamanho de Stalin… A pequena-burguesia mussoliniana, douta em primeiras letras, amamentada pela burocracia e pelo confessionário, querendo num desrecalque sensacional viver perigosamente… Veja no que deu!

— Você há de convir que a América não está fazendo só sociologia.

— Não nego. Houve um americano que prestou mais serviços ao futuro que todo o primeiro time do nosso caro Prof. Pearson… Um pequeno jornalista americano. ” A sociologia o desconhece, a literatura oficial finge que o esqueceu, as enciclopédias não o citam. Um nome apenas. Chamava-se John Reed. Escreveu um livro intitulado Dez Dias que Abalaram o Mundo. Só o cerume da sociologia, nas orelhas blindadas da pesquisa, não deixa ouvir os roncos telúricos dos canhões que estão liquidando a maior conspirata que a história humana viu armar-se contra o espírito e o progresso hegeliano do espírito…

— Bem. E John Reed? Você quer falar do soldado de John Reed… Aquele soldadinho que os cadetes da velha escola de Petrogrado tentaram subornar com moedas de cultura…

— Para atrapalhar a tarefa que ele inexoravelmente executava, longe da filosofia, tendo apenas na cabeça idéias simples como pregos e uma arma na mão… Imagine se os cadetes tivessem toda a lista de nomes que a filantropia cultural fornece aos bedéis da sociologia! Só enumerando-os, dava para retardar a marcha do mundo…

— Mas o soldado de John Reed cumpriu a sua missão no palco vivo da história contemporânea.

Do teatro, que é bom

— Não, você não tem razão alguma em fazer restrições ao empreendimento desses meninos e dessas moças. Só o fato deles nos descansarem do cinema, dessa imbecilização crescente pela tela, com que os Estados Unidos afogaram o mundo, para depois tomá-lo sem resistência, só isso me faria dar à Legião de Honra, à Cruz de Ferro, à Ordem do Cruzeiro, tudo que haja de condecoração em todo o mundo aos amadores do nosso teatro. Olhe, quando se falou contra o ópio do povo, devia-se ter posto no plural e juntado o cinema e o futebol… o mundo não progride por causa desses entorpecentes…

— Você está inteiramente equivocado, o cinema como o estádio exprimem a nossa época. Basta você recorrer a um indicador demográfico para verificar como a era da maquina tinha que produzir seus meios expressionais para uma humanidade que blefaria Malthus na sua prodigiosa ascensão censitária. O mundo de hoje tende a crescer e não há espiroqueta pulido, pára-quedista químico, tanque, canhão ou metralhadora, SS, o estreptococo rajado, que possa com uma humanidade alfabetizada, elucidada pelo cinema, vigilante pela escola, saneada no esporte e na higiene alimentar, amparada pela a cirurgia, pela a sulfanilamida, pela granacidina…

— Tudo isso seria ótimo se não houvesse aquela pequena diferença que fez o índio brasileiro, citado por Montaigne em “Os Canibais”, observar na corte de Rouen, que muito se admirava do conforto da cidade européia, mas muito mais de que não fossem os palácios e salões queimados pelos habitantes dos cortiços e dos casebres…

— Ora, tudo tem seu tempo. A humanidade processa dialeticamente a sua ascensão. Cria o órgão e cria a função. Se amanhã se unificarem os meios de produção, o que parece possível, já não haverá dificuldades em reeducar o mundo, através da tela e do rádio, do teatro de choque e do estádio. E a era da máquina que atinge seu zênite. Por isso mesmo, meus reparos são contra o teatro de câmara que esses meninos cultivam, em vez de se entusiasmarem pelo teatro sadio e popular, pelo teatro social ou simplesmente pelo teatro modernista a, que ao menos uma vantagem traz, a mudança de qualquer coisa. Houve quem me dissesse que Lenormand, aqui representado, é moderno. Por quê? Porque as suas peças são em dois atos? Meu Deus! Mas veja o espírito! Aquele imperialismo francês que havia de dar em Vichy, e na grotesca fidelidade da Martinica! Com toda a bêtise do colonial da época de La Condamine, sem entender nada do que acontece. Afogado conchavo de almas eleitas perdidas na epiderme duma África de ficelle onde o senhor feiticeiro vem anunciar, no primeiro ato; a desgraça que acontece certinha no final! Há uma canção de Montparnasse com que os estudantes de Medicina de Paris costumavam celebrar os seus amores:

“Nous sommes unis par la vérole
Mieux que par Ie lien conjugal!
On exposera nos viscéres…
Chez Dupuytren”.

É todo Lenormant. Você não acha? Esse compartimento estanque de incuráveis de uma sociedade incurável, que vem expor suas vísceras esverdinhadas a luz doentia dos refletores mais lúridos… Olha, o título de sua obra-prima diz tudo, Les Rates…

— Mas o que você queria que eles representassem? O teatro francês tem dado boutades neste século, grandes boutades é verdade, mas que geralmente canalizam seu êxito nos elencos admiráveis, coisa que aqui ainda não pode suceder. Veja o sucesso de Romains e o de Giraudoux, é devido a Jouvet. A França nestes últimos tempos tem aprimorado a expressão cênica. Uma reação admirável contra o abastardamento trazido pelo cinema. Sentindo-se atacado, o teatro melhorou, produziu o Vieux Colombier, o Atelier, alguns minúsculos palcos de escola, onde se refugiou o espirito nessa fabulosa Paris que a bota imunda do guarda-floresta Hitler tenta inutilmente pisar… Veja como, graças aos Dullin, aos Pitoeff, aos Copeau, o teatro soube reacender a sua flama que parecia extinta…

— De outro lado você parece esquecer Meyerhold e as fabulosas transformações da cena russa a a fim de levar a massa, o espetáculo, a alegria e a ética do espetáculo… Tudo o que tinha sido anunciado por Gorki.

— Bragaglia também tentou…

— Não, Bragaglia funcionou no pequeno laboratório modernista das experiências que você acaba de citar… São ainda e sempre o teatro de câmara. A réplica cenográfica do paradoxo de Pirandello. Não vou negar, nem ao próprio Bragaglia e nem ao próprio Pirandello, o valor dessas pesquisas nos dois campos, da plástica cênica e da ótica psíquica… Mas, isso não corresponde mais aos anseios do povo que quer saber, que tem direito de conhecer e de ver… Essas experiências intelectualistas são uma degenerescência da própria arte teatral, da própria finalidade do teatro que tem a sua grande linha dos gregos a Goldoni, a Commedia del’ Art, e ao teatro de Moliére e Shakespeare… E que um dia, talvez breve, há de somar num sentido honesto, Wagner e Oberammergau…

— Por que será que essa concepção de teatro de massa que você atira nas costas do classicismo para justificar o seu Meyerhold, teria estagnado do século XVIII para cá?

— Pela simples interferência vitoriosa do individualismo em seu apogeu. Como a pintura desceu do mural, abandonou as paredes das igrejas e se fixou no cavalete, o teatro deixou o seu senti do inicial que era o de espetáculo popular e educativo, para se tornar um minarete de paixões pessoais, uma simples magnésia para as dispepsias mentais dos burgueses bem jantados. Dai a sua decadência enorme em to do o século XIX. A própria pujança de Hugo, com o seu prefácio do Ernani, o seu Ruy Bias, não teve a prise que podia ter na cena. O romantismo estragou lá Hugo, e aqui, Gonçalves Dias…

— Você tem acompanhado os rodapés minuciosos do Sr. Antônio Cândido sobre o maranhense?

— EIe é uma flor de talento e boa vontade ao lado dessas baratas caídas no melado da cultura, desses batráquios atolados no documento, coaxando ao universo estrelado kantiano e ignorando totalmente tudo que não for chatologia pueril, isto é, tudo que não for além da intelligentia burguesa disfarçada num avental de laboratório americano, bem engomado, bem pago e cristão. Ignoram a Judéia, a Grécia, o medievo, a grande metafísica alemã, de onde foi dado o sinal de partida do mundo moderno das ideias… E de onde saiu um grande homem de teatro…

— Henrik Ibsen. ” Conheço seu velho esquema sobre o norueguês. ” Acho excessiva a operação ortopédica que você tentou há quase um século, quando era estudante, num artigo na Revista do Centro Acadêmico Onze de Agosto, onde pretendeu ligar Ibsen a Kant…

— Talvez hoje eu não fosse capaz de ser tão sintético. Mas, há nas duas ramificações essenciais de Ibsen, que naquela época eu preferia fazer partir da razão pura (Peer Gynt) e da razão prática (Brand)

— o sinal das Antíteses.

— Troque isso em miúdo senão não entendo.

— Ora, que dizem as Antíteses? Ou Deus existe… É o fundamento da razão prática… Se você quiser, da Moral… É o imperativo categórico que leva o pastor Brand na sua louca ascese sentimental, primeiro a sacrificar a mãe que agoniza sem absolvição, depois o filhinho que não resiste as intempéries daquele fim de montanha, onde ele erigiu o seu ríspido apostolado, depois a companheira, a esposa que não tem o direito sequer de guardar a touquinha banhada pelo último suor de sua criança morta… e que estala sob a cólera religiosa do monstro… Enfim a sua final ascensão solitária na direção da Catedral de Gelo e a voz da avalanche que ensina que Deus é caridade…

— De outro lado, se Deus não existe…

— É Peer Gynt, o aventureiro na espiral das sensações e dos equívocos, que o fazem naufragar um dia nas praias saudosas da infância, para correr atrás de si mesmo, perseguido pelas canções que devia ter cantado, pelas lágrimas que devia ter chorado, pelos atos que devia ter praticado… E só se encontrou no amor de Solveig, antes que a colher do caldeireiro gigantesco o fizesse voltar a massa dos que não tem efígie… Desse pórtico magnífico saem as principais obras do mestre. Você pode filiar Hedda Gabler, e Os Espectros a insensibilidade moral de Peer, enquanto da Casa de Boneca ao Pequeno Eyolf e a Senhora do Mar há o desenvolvimento do drama de Brand. Está aí um teatro para hoje, um teatro de estádio… participante dos debates do homem…

— Houve uma tentativa levada a cabo por Lugne Poe, em Paris, de se representar o Peer Gynt…

— Só a técnica intervencionista dos estetas soviéticos possa talvez realizar essas cenas debaixo do mar (no naufrágio), a aparição do cão de bordo, querendo comprar de Peer o seu cadáver para estudar o núcleo do sonho… Os surrealistas em Paris tentaram realizar, na cena, Strindberg. ” Ibsen era, para eles, grandioso demais, demais coletivo, próximo portanto das origens verídicas do teatro — festa popular e grande catarse… Na Grécia como a política, o teatro padece da decadência que vai do homérico ao aristofânico, da soberba unificação diante de Tróia, ao esfarelamento fratricida do Peloponeso. Quanto mais próximo do fatum, do destino que traz em si a marca da irresponsabilidade de Deus, o homem em luta com ele se destaca e se humaniza de Ésquilo a Sófocles, mas quando chega Eurípides, desfiam-se os enredos dos casos de família e nem mesmo os urros de Écuba e o amor de Hipólito fazem voltar o palco helênico ao esplendor da Tebas de Édipo ou do voto de Minerva que fez parar a corrida angustiada de Orestes. Tanto que, e em Eurípides que a metrificação envernizada e tersa de Racine vai buscar o texto de suas mediocridades, para edificação e divertimento dos colégios de Sion de todo mundo. Ésquilo e Sófocles ficam intangíveis e altos do pórtico da tragédia dionisíaca a que Nietzsche deu a única heráldica de era capaz, a do seu gênio. Ressalta, pois, de tudo isso, o caráter religioso do teatro, festa coletiva, festa de massa, festa do povo, cujo sentido já é modernamente e vagamente procurado em Shaw e no passional americano, O’Neil. A França deu, nestes últimos tempos, também uma grande farsa, que não fica longe dos mistérios medievais, ou melhor, das suas grandes jocosidades que Jacques Copeau reconstituiu nos dias magníficos do Vieux Colombier. Foi o Ubu de Jarry onde o Rabelais represado pela burguesia de bons costumes, que vem de Lesage a Flaubert, havia de trazer a nós todos a esperança de sua imortalidade. O Ubu-Roi de Jarry, as paradas sensacionais do Cocteau da Tôrre Eiffel e uma grande forma nova de teatro encontrada no ballet, tiveram sua expressão, seu denominador comum, num homem que seria o único capaz de realizar o grande espetáculo moderno que devia ser a ópera. Se houve ultimamente um gênio em França, esse se chamou Erik Satie…

— Aliás, um discípulo dele realizou a ópera de que você fala, o Cristóvão Colombo do claudeliano Darius Milhaud. E Claudel?

— Claudel não é só a Idade Media leprosa e milagreira daquele horrendo Annonce fait a Marie. Entrego o assunto ao Prof. Roger Bastide que fez aqui, o ano passado, uma grande conferência sobre Claudel… Claudel é sobretudo a catolicidade, uma sombra intelectual de Loureço-o Magnifico. O contrário dessa igreja galicana, herética, intrigante e impopular, que Bernanos representa inutilmente, atacando Hitler e querendo o Duque de Guise… Claudel está sendo realizado inferiormente por Milhaud…

— Que tenta, no entanto, o grande teatro moderno, a ópera…

— Exatamente. Tudo isso indica o aparelhamento que a era da maquina, com o populismo do Stravinski, as locomotivas de Poulenc, as metralhadoras de Shostakovich na música, a arquitetura monumental de Fernand Léger e a encenação de Meyerhold, propõe aos estádios de nossa época onde há de se tornar uma realidade o teatro de amanha, como foi o teatro na Grécia, o teatro para a vontade do povo e a emoção do povo… Como teria sido agora na Espanha se acontecesse o contrário do que aconteceu: — para a mediocridade de Jacinto Benavente o Prêmio Nobel e para Federico Garcia Lorca o pelotão da madrugada. Mas é pelo teatro popular indicado por esse Whitman moderno que se venha talvez a realizar a estética coletivista de Meyerhold e de Tairov.

— E a Espanha velha? A Espanha de Caldéron… e dos mistérios?

— Shakespeare superou Calderon como a Inglaterra derrotou a invencível Armada. A época era humanística e não católica. Eu tenho a impressão de que por detrás do histrião Shakespeare, viveu oculto um dos maiores humanistas da era elisabetana.

— Bacon de Verulam? Mas eu não vejo relação entre o pensamento claro e lógico do chanceler e essa caverna onde uma humanidade vistosa e narcisista debate os seus instintos primários que é toda a obra de Shakespeare.

— Basta pensar no Hamlet para você ver quanto erra: o Hamlet é, para mim, a carteira de identidade de Bacon no bolso do jaleco de Shakespeare. Há todo o drama do renascimento humanístico no príncipe viajado tornado culto, portanto cético, no contágio sufocante dos primados ancestrais que ia encontrar em Eisenor.

— Mas você não acha um disparate fazer concordar aquele racionalismo que sucedeu ao de Montaigne, com as florestas que marcham, os punhais recurvos de Otelo e os balcões floridos de Julieta?

— Engano, veja, séculos depois, outro exemplo. É o claro, o luminoso, o estatal Goethe, de Weimar, que desencadeia as forças subterrâneas e as forças celestiais no embate encarniçado pela alma do homem tornado livre. No Fausto, no primeiro e no segundo Fausto, há Bacon e há Shakespeare.

— Puro teatro, e que teatro!

— Um espetáculo, meu caro. Mas o mundo se transformou depois do sedentário século das luzes, do romantismo de gabinete e da calma Aufklärung. Sancho montou o cavalo de Quixote! E a imagem guerreira do fascismo, a burguesia, a pequena-burguesia querendo tomar parte em rodeios com um vilão do tamanho de Stalin… A pequena-burguesia mussoliniana, douta em primeiras letras, amamentada pela burocracia e pelo confessionário, querendo num desrecalque sensacional viver perigosamente… Veja no que deu!

— Você há de convir que a América não está fazendo só sociologia.

— Não nego. Houve um americano que prestou mais serviços ao futuro que todo o primeiro time do nosso caro Prof. Pearson… Um pequeno jornalista americano. ” A sociologia o desconhece, a literatura oficial finge que o esqueceu, as enciclopédias não o citam. Um nome apenas. Chamava-se John Reed. Escreveu um livro intitulado Dez Dias que Abalaram o Mundo. Só o cerume da sociologia, nas orelhas blindadas da pesquisa, não deixa ouvir os roncos telúricos dos canhões que estão liquidando a maior conspirata que a história humana viu armar-se contra o espírito e o progresso hegeliano do espírito…

— Bem. E John Reed? Você quer falar do soldado de John Reed… Aquele soldadinho que os cadetes da velha escola de Petrogrado tentaram subornar com moedas de cultura…

— Para atrapalhar a tarefa que ele inexoravelmente executava, longe da filosofia, tendo apenas na cabeça idéias simples como pregos e uma arma na mão… Imagine se os cadetes tivessem toda a lista de nomes que a filantropia cultural fornece aos bedéis da sociologia! Só enumerando-os, dava para retardar a marcha do mundo…

— Mas o soldado de John Reed cumpriu a sua missão no palco vivo da história contemporânea.

Do teatro, que é bom

— Não, você não tem razão alguma em fazer restrições ao empreendimento desses meninos e dessas moças. Só o fato deles nos descansarem do cinema, dessa imbecilização crescente pela tela, com que os Estados Unidos afogaram o mundo, para depois tomá-lo sem resistência, só isso me faria dar à Legião de Honra, à Cruz de Ferro, à Ordem do Cruzeiro, tudo que haja de condecoração em todo o mundo aos amadores do nosso teatro. Olhe, quando se falou contra o ópio do povo, devia-se ter posto no plural e juntado o cinema e o futebol… o mundo não progride por causa desses entorpecentes…

— Você está inteiramente equivocado, o cinema como o estádio exprimem a nossa época. Basta você recorrer a um indicador demográfico para verificar como a era da maquina tinha que produzir seus meios expressionais para uma humanidade que blefaria Malthus na sua prodigiosa ascensão censitária. O mundo de hoje tende a crescer e não há espiroqueta pulido, pára-quedista químico, tanque, canhão ou metralhadora, SS, o estreptococo rajado, que possa com uma humanidade alfabetizada, elucidada pelo cinema, vigilante pela escola, saneada no esporte e na higiene alimentar, amparada pela a cirurgia, pela a sulfanilamida, pela granacidina…

— Tudo isso seria ótimo se não houvesse aquela pequena diferença que fez o índio brasileiro, citado por Montaigne em “Os Canibais”, observar na corte de Rouen, que muito se admirava do conforto da cidade européia, mas muito mais de que não fossem os palácios e salões queimados pelos habitantes dos cortiços e dos casebres…

— Ora, tudo tem seu tempo. A humanidade processa dialeticamente a sua ascensão. Cria o órgão e cria a função. Se amanhã se unificarem os meios de produção, o que parece possível, já não haverá dificuldades em reeducar o mundo, através da tela e do rádio, do teatro de choque e do estádio. E a era da máquina que atinge seu zênite. Por isso mesmo, meus reparos são contra o teatro de câmara que esses meninos cultivam, em vez de se entusiasmarem pelo teatro sadio e popular, pelo teatro social ou simplesmente pelo teatro modernista a, que ao menos uma vantagem traz, a mudança de qualquer coisa. Houve quem me dissesse que Lenormand, aqui representado, é moderno. Por quê? Porque as suas peças são em dois atos? Meu Deus! Mas veja o espírito! Aquele imperialismo francês que havia de dar em Vichy, e na grotesca fidelidade da Martinica! Com toda a bêtise do colonial da época de La Condamine, sem entender nada do que acontece. Afogado conchavo de almas eleitas perdidas na epiderme duma África de ficelle onde o senhor feiticeiro vem anunciar, no primeiro ato; a desgraça que acontece certinha no final! Há uma canção de Montparnasse com que os estudantes de Medicina de Paris costumavam celebrar os seus amores:

“Nous sommes unis par la vérole
Mieux que par Ie lien conjugal!
On exposera nos viscéres…
Chez Dupuytren”.

É todo Lenormant. Você não acha? Esse compartimento estanque de incuráveis de uma sociedade incurável, que vem expor suas vísceras esverdinhadas a luz doentia dos refletores mais lúridos… Olha, o título de sua obra-prima diz tudo, Les Rates…

— Mas o que você queria que eles representassem? O teatro francês tem dado boutades neste século, grandes boutades é verdade, mas que geralmente canalizam seu êxito nos elencos admiráveis, coisa que aqui ainda não pode suceder. Veja o sucesso de Romains e o de Giraudoux, é devido a Jouvet. A França nestes últimos tempos tem aprimorado a expressão cênica. Uma reação admirável contra o abastardamento trazido pelo cinema. Sentindo-se atacado, o teatro melhorou, produziu o Vieux Colombier, o Atelier, alguns minúsculos palcos de escola, onde se refugiou o espirito nessa fabulosa Paris que a bota imunda do guarda-floresta Hitler tenta inutilmente pisar… Veja como, graças aos Dullin, aos Pitoeff, aos Copeau, o teatro soube reacender a sua flama que parecia extinta…

— De outro lado você parece esquecer Meyerhold e as fabulosas transformações da cena russa a a fim de levar a massa, o espetáculo, a alegria e a ética do espetáculo… Tudo o que tinha sido anunciado por Gorki.

— Bragaglia também tentou…

— Não, Bragaglia funcionou no pequeno laboratório modernista das experiências que você acaba de citar… São ainda e sempre o teatro de câmara. A réplica cenográfica do paradoxo de Pirandello. Não vou negar, nem ao próprio Bragaglia e nem ao próprio Pirandello, o valor dessas pesquisas nos dois campos, da plástica cênica e da ótica psíquica… Mas, isso não corresponde mais aos anseios do povo que quer saber, que tem direito de conhecer e de ver… Essas experiências intelectualistas são uma degenerescência da própria arte teatral, da própria finalidade do teatro que tem a sua grande linha dos gregos a Goldoni, a Commedia del’ Art, e ao teatro de Moliére e Shakespeare… E que um dia, talvez breve, há de somar num sentido honesto, Wagner e Oberammergau…

— Por que será que essa concepção de teatro de massa que você atira nas costas do classicismo para justificar o seu Meyerhold, teria estagnado do século XVIII para cá?

— Pela simples interferência vitoriosa do individualismo em seu apogeu. Como a pintura desceu do mural, abandonou as paredes das igrejas e se fixou no cavalete, o teatro deixou o seu senti do inicial que era o de espetáculo popular e educativo, para se tornar um minarete de paixões pessoais, uma simples magnésia para as dispepsias mentais dos burgueses bem jantados. Dai a sua decadência enorme em to do o século XIX. A própria pujança de Hugo, com o seu prefácio do Ernani, o seu Ruy Bias, não teve a prise que podia ter na cena. O romantismo estragou lá Hugo, e aqui, Gonçalves Dias…

— Você tem acompanhado os rodapés minuciosos do Sr. Antônio Cândido sobre o maranhense?

— EIe é uma flor de talento e boa vontade ao lado dessas baratas caídas no melado da cultura, desses batráquios atolados no documento, coaxando ao universo estrelado kantiano e ignorando totalmente tudo que não for chatologia pueril, isto é, tudo que não for além da intelligentia burguesa disfarçada num avental de laboratório americano, bem engomado, bem pago e cristão. Ignoram a Judéia, a Grécia, o medievo, a grande metafísica alemã, de onde foi dado o sinal de partida do mundo moderno das ideias… E de onde saiu um grande homem de teatro…

— Henrik Ibsen. ” Conheço seu velho esquema sobre o norueguês. ” Acho excessiva a operação ortopédica que você tentou há quase um século, quando era estudante, num artigo na Revista do Centro Acadêmico Onze de Agosto, onde pretendeu ligar Ibsen a Kant…

— Talvez hoje eu não fosse capaz de ser tão sintético. Mas, há nas duas ramificações essenciais de Ibsen, que naquela época eu preferia fazer partir da razão pura (Peer Gynt) e da razão prática (Brand)

— o sinal das Antíteses.

— Troque isso em miúdo senão não entendo.

— Ora, que dizem as Antíteses? Ou Deus existe… É o fundamento da razão prática… Se você quiser, da Moral… É o imperativo categórico que leva o pastor Brand na sua louca ascese sentimental, primeiro a sacrificar a mãe que agoniza sem absolvição, depois o filhinho que não resiste as intempéries daquele fim de montanha, onde ele erigiu o seu ríspido apostolado, depois a companheira, a esposa que não tem o direito sequer de guardar a touquinha banhada pelo último suor de sua criança morta… e que estala sob a cólera religiosa do monstro… Enfim a sua final ascensão solitária na direção da Catedral de Gelo e a voz da avalanche que ensina que Deus é caridade…

— De outro lado, se Deus não existe…

— É Peer Gynt, o aventureiro na espiral das sensações e dos equívocos, que o fazem naufragar um dia nas praias saudosas da infância, para correr atrás de si mesmo, perseguido pelas canções que devia ter cantado, pelas lágrimas que devia ter chorado, pelos atos que devia ter praticado… E só se encontrou no amor de Solveig, antes que a colher do caldeireiro gigantesco o fizesse voltar a massa dos que não tem efígie… Desse pórtico magnífico saem as principais obras do mestre. Você pode filiar Hedda Gabler, e Os Espectros a insensibilidade moral de Peer, enquanto da Casa de Boneca ao Pequeno Eyolf e a Senhora do Mar há o desenvolvimento do drama de Brand. Está aí um teatro para hoje, um teatro de estádio… participante dos debates do homem…

— Houve uma tentativa levada a cabo por Lugne Poe, em Paris, de se representar o Peer Gynt…

— Só a técnica intervencionista dos estetas soviéticos possa talvez realizar essas cenas debaixo do mar (no naufrágio), a aparição do cão de bordo, querendo comprar de Peer o seu cadáver para estudar o núcleo do sonho… Os surrealistas em Paris tentaram realizar, na cena, Strindberg. ” Ibsen era, para eles, grandioso demais, demais coletivo, próximo portanto das origens verídicas do teatro — festa popular e grande catarse… Na Grécia como a política, o teatro padece da decadência que vai do homérico ao aristofânico, da soberba unificação diante de Tróia, ao esfarelamento fratricida do Peloponeso. Quanto mais próximo do fatum, do destino que traz em si a marca da irresponsabilidade de Deus, o homem em luta com ele se destaca e se humaniza de Ésquilo a Sófocles, mas quando chega Eurípides, desfiam-se os enredos dos casos de família e nem mesmo os urros de Écuba e o amor de Hipólito fazem voltar o palco helênico ao esplendor da Tebas de Édipo ou do voto de Minerva que fez parar a corrida angustiada de Orestes. Tanto que, e em Eurípides que a metrificação envernizada e tersa de Racine vai buscar o texto de suas mediocridades, para edificação e divertimento dos colégios de Sion de todo mundo. Ésquilo e Sófocles ficam intangíveis e altos do pórtico da tragédia dionisíaca a que Nietzsche deu a única heráldica de era capaz, a do seu gênio. Ressalta, pois, de tudo isso, o caráter religioso do teatro, festa coletiva, festa de massa, festa do povo, cujo sentido já é modernamente e vagamente procurado em Shaw e no passional americano, O’Neil. A França deu, nestes últimos tempos, também uma grande farsa, que não fica longe dos mistérios medievais, ou melhor, das suas grandes jocosidades que Jacques Copeau reconstituiu nos dias magníficos do Vieux Colombier. Foi o Ubu de Jarry onde o Rabelais represado pela burguesia de bons costumes, que vem de Lesage a Flaubert, havia de trazer a nós todos a esperança de sua imortalidade. O Ubu-Roi de Jarry, as paradas sensacionais do Cocteau da Tôrre Eiffel e uma grande forma nova de teatro encontrada no ballet, tiveram sua expressão, seu denominador comum, num homem que seria o único capaz de realizar o grande espetáculo moderno que devia ser a ópera. Se houve ultimamente um gênio em França, esse se chamou Erik Satie…

— Aliás, um discípulo dele realizou a ópera de que você fala, o Cristóvão Colombo do claudeliano Darius Milhaud. E Claudel?

— Claudel não é só a Idade Media leprosa e milagreira daquele horrendo Annonce fait a Marie. Entrego o assunto ao Prof. Roger Bastide que fez aqui, o ano passado, uma grande conferência sobre Claudel… Claudel é sobretudo a catolicidade, uma sombra intelectual de Loureço-o Magnifico. O contrário dessa igreja galicana, herética, intrigante e impopular, que Bernanos representa inutilmente, atacando Hitler e querendo o Duque de Guise… Claudel está sendo realizado inferiormente por Milhaud…

— Que tenta, no entanto, o grande teatro moderno, a ópera…

— Exatamente. Tudo isso indica o aparelhamento que a era da maquina, com o populismo do Stravinski, as locomotivas de Poulenc, as metralhadoras de Shostakovich na música, a arquitetura monumental de Fernand Léger e a encenação de Meyerhold, propõe aos estádios de nossa época onde há de se tornar uma realidade o teatro de amanha, como foi o teatro na Grécia, o teatro para a vontade do povo e a emoção do povo… Como teria sido agora na Espanha se acontecesse o contrário do que aconteceu: — para a mediocridade de Jacinto Benavente o Prêmio Nobel e para Federico Garcia Lorca o pelotão da madrugada. Mas é pelo teatro popular indicado por esse Whitman moderno que se venha talvez a realizar a estética coletivista de Meyerhold e de Tairov.

— E a Espanha velha? A Espanha de Caldéron… e dos mistérios?

— Shakespeare superou Calderon como a Inglaterra derrotou a invencível Armada. A época era humanística e não católica. Eu tenho a impressão de que por detrás do histrião Shakespeare, viveu oculto um dos maiores humanistas da era elisabetana.

— Bacon de Verulam? Mas eu não vejo relação entre o pensamento claro e lógico do chanceler e essa caverna onde uma humanidade vistosa e narcisista debate os seus instintos primários que é toda a obra de Shakespeare.

— Basta pensar no Hamlet para você ver quanto erra: o Hamlet é, para mim, a carteira de identidade de Bacon no bolso do jaleco de Shakespeare. Há todo o drama do renascimento humanístico no príncipe viajado tornado culto, portanto cético, no contágio sufocante dos primados ancestrais que ia encontrar em Eisenor.

— Mas você não acha um disparate fazer concordar aquele racionalismo que sucedeu ao de Montaigne, com as florestas que marcham, os punhais recurvos de Otelo e os balcões floridos de Julieta?

— Engano, veja, séculos depois, outro exemplo. É o claro, o luminoso, o estatal Goethe, de Weimar, que desencadeia as forças subterrâneas e as forças celestiais no embate encarniçado pela alma do homem tornado livre. No Fausto, no primeiro e no segundo Fausto, há Bacon e há Shakespeare.

— Puro teatro, e que teatro!

— Um espetáculo, meu caro. Mas o mundo se transformou depois do sedentário século das luzes, do romantismo de gabinete e da calma Aufklärung. Sancho montou o cavalo de Quixote! E a imagem guerreira do fascismo, a burguesia, a pequena-burguesia querendo tomar parte em rodeios com um vilão do tamanho de Stalin… A pequena-burguesia mussoliniana, douta em primeiras letras, amamentada pela burocracia e pelo confessionário, querendo num desrecalque sensacional viver perigosamente… Veja no que deu!

— Você há de convir que a América não está fazendo só sociologia.

— Não nego. Houve um americano que prestou mais serviços ao futuro que todo o primeiro time do nosso caro Prof. Pearson… Um pequeno jornalista americano. ” A sociologia o desconhece, a literatura oficial finge que o esqueceu, as enciclopédias não o citam. Um nome apenas. Chamava-se John Reed. Escreveu um livro intitulado Dez Dias que Abalaram o Mundo. Só o cerume da sociologia, nas orelhas blindadas da pesquisa, não deixa ouvir os roncos telúricos dos canhões que estão liquidando a maior conspirata que a história humana viu armar-se contra o espírito e o progresso hegeliano do espírito…

— Bem. E John Reed? Você quer falar do soldado de John Reed… Aquele soldadinho que os cadetes da velha escola de Petrogrado tentaram subornar com moedas de cultura…

— Para atrapalhar a tarefa que ele inexoravelmente executava, longe da filosofia, tendo apenas na cabeça idéias simples como pregos e uma arma na mão… Imagine se os cadetes tivessem toda a lista de nomes que a filantropia cultural fornece aos bedéis da sociologia! Só enumerando-os, dava para retardar a marcha do mundo…

— Mas o soldado de John Reed cumpriu a sua missão no palco vivo da história contemporânea.